Discurso de Lula antes da prisão ganha peso histórico, dizem analistas

Lula nos braços do povo durante ato em São Bernardo
Lula nos braços do povo durante ato em São Bernardo – Foto: Ricardo Stuckert / Divulgação

 

 

 

 

 

Da Folha de Pernambuco

 

O discurso homérico de 55 minutos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no início da tarde deste sábado (7), pouco antes de ele se entregar à Polícia Federal (7) para cumprimento da sentença de 12 anos e um mês de prisão, já é visto pelos analistas como um fato inusitado e histórico. Alguns consideram o gesto político, diante do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, o mais importante desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. Outros frisam o tom de despedida, apresentando para o eleitorado de esquerda os candidatos à Presidência do próprio PT, do PSOL e do PCdoB, que devem tocar o seu legado.

Desde a quarta-feira (4) em que foi negado, na Suprema Corte, o habeas corpus preventivo que evitaria essa prisão do líder petista, já era visível o abatimento dos eleitores de esquerda diante do revés sofrido por Lula. Logo, quando o juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão de imediato, dando apenas um prazo de 24 horas, atrapalhou a mobilização dos movimentos sociais e dos partidos para saudar o ex-presidente no ato de sua detenção. Mas os gestos da quinta pra cá se desenharam no sentido de correr contra o tempo e mexer com a autoestima da militância.

O tom do discurso, relembra o cientista político Elton Gomes, foi o mesmo desde que o ex-presidente começou a se tornar réu no processo de do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia. “Ele desqualifica a acusação, diz que não existem provas concretas, diz que aprova a Lava Jato, mas é inocente. Depois faz uma digressão para a defesa do seu legado histórico desde a luta sindical”, relata. “Teve um tom confronto à mídia nacional, num primeiro momento, e de ataque ao Judiciário, livrando apenas o STF, porque causaria um efeito negativo à figura dele. Fica claro o tom desafiador quando ele diz, por exemplo, que o juiz e o Ministério Público mentem (buscando um tom conspiratório)”, compreende.

Estratégia

Ficou visível a habilidade do petista como negociador e um certo acovardamento das autoridades públicas no cerco. “A militância vinha se frustrando com os sucessivos fracassos na Justiça. Mas Lula é um líder carismático, o PT depende demasiado dele. Por isso, ele optou, como fazia na luta sindical, em falar grosso para a militância e, diante das autoridades do Judiciário, revezava entre falar grosso e falar fino, com a ajuda da sua caríssima banca de advogados”, avaliou Elton. “Falando grosso no palanque, ele remete ao líder sindical, ao Lula identificado com as causas sociais e não o Lula que deu certo, o pragmático, que fez alianças com o PMDB e governou o País por oito anos”, observou.

Essa capacidade de pensar os atos políticos, na visão do cientista político Rudá Ricci, ficou clara quando, mesmo sofrendo um revés, Lula deixou a imprensa falando sobre ele durante dois dias sem parar. “A imagem que fica é o Lula nos braços do povo. Ele não criou um ato de desobediência civil, ele desautorizou o Moro. Não vai entrar na cadeia de cabeça baixa, conseguiu transformar o limão numa limonada, com esse sentimento de empatia pelo sofrimento. Agora se isso vai significar uma mudança de rumo na militância, só o tempo vai dizer”, refletiu.

A necessidade de manter unida a militância, para Elton Gomes, se deve ao período de corrosão que a sua imagem pública vai sofrer. O discurso tenta enfrentar o risco de comprometer a transferência de votos, tanto para um herdeiro petista (com a preferência do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad) quanto para os pré-candidatos Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), que têm o “selo esquerdista” atestado pelo próprio Lula no palanque. “Ele está construindo uma cerca ao redor do percentual que ele já tem, na casa dos 20% a 30%, e que garantiria a ida ao segundo turno para quem fosse ungido”, aponta.

Esse período da prisão, onde se previa o esfacelamento da mobilização de esquerda, pode, na verdade, fornecer munição ideológica para a corrida eleitoral. “O segundo momento é em agosto, quando a campanha começar. Lula deverá escolher um porta-voz do seu pensamento, para não dispersar a comunicação, e buscará se consolidar como liderança. O terceiro momento seria, entre 2019 e 2020, se prevalecer a previsão de que ele será solto em até dois anos. Lula pode tanto submergir, como fez José Dirceu, quanto vencer o ostracismo e aí estaria consolidada a visão do ‘preso político’ que ele tenta construir”, reflete Rudá Ricci.

Assista ao discurso de Lula em São Bernardo:

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