Especialistas desvendam as máscaras dos assassinos de Suzano

Guilherme Taucci Monteiro

 

 

Comportamentos como o que resultou na morte de dez pessoas em uma escola em Suzano, ontem, são, com frequência, imitados de outros. São frutos de transtornos psicóticos, desenvolvidos aos poucos, principalmente durante a adolescência. Os atos são uma espécie de misto entre acertos de conta e tentativa de realizar um grande feito e entrar para a História. Mesmo que de maneira abominável.

De acordo com a professora de psiquiatria da UPE, Kátia Petribú, geralmente, a necrópsia psicológica de jovens que cometem atos com o de Suzano revela pessoas tímidas, que não se sentiam aceitas pelo meio em que estão inseridas. “Eles apresentam um isolamento, um comportamento mais estranho e de poucos amigos. Uma relação interpessoal muito restrita”, conta. “Nos próximos dias, devemos ter acesso a um perfil psicológico deles, mesmo que superficial, pela imprensa”.

O comportamento descrito pela professora é o reflexo de um quadro psicótico sendo desenvolvido. “Não acontece de uma hora para outra. Eles ameaçam as escolas, mandam e-mails, gravam vídeos. Mas esse vídeo não é valorizado, mesmo nos Estados Unidos, onde a segurança é muito levada a sério.”

Ela conta que os ataques a locais de ensino são uma espécie de acerto de contas. Uma forma de vingar o que se sofreu, de vingar a honra. “Tudo que houve de rechaço, de não-integração entra nesse planejamento. ‘Eu sofri isso tudo, mas eles vão morrer’”, completa. Os comportamentos são imitados. Eles repetem o visto a partir dos feitos das pessoas que admiram.

Sobre o fato de duas pessoas vizinhas terem realizado juntas o caso, a médica lembra da possibilidade haver um transtorno compartilhado. Nesses casos, o mais forte chama o mais fraco e o envolve em sua loucura. A “folie à deux”, como é chamada, (em tradução livre: “loucura a dois”), acontece entre pessoas muito próximas.

O acerto de contas vai se tornando claro quando a informação de que um dos atiradores poderia ter sido expulso da escola no ano passado. Para o professor de psicologia da UFPE, Sylvio Ferreira, o massacre pode ser visto como um sintoma da escola. “Quando expulsa, a escola o resolve problema dela, não do aluno. Essa é uma falha institucional. O caminho mais fácil para uma escola, o do afastamento, é como o conteúdo psíquico recalcado: há uma negação de algo por não saber como lidar com aquilo. Mas o conteúdo não desaparece, simplesmente. Retorna como um sintoma, com o poder de uma avalanche”, comparou. Para Sylvio, o desafio é doar atenção ao aluno, entender o que há de errado e fazê-lo falar. Não se vai resolver o problema que existe fora da escola, mas falar tem o poder de anular ações.

Ademais, existe algo para além das causas psíquicas que merece ser levado em consideração, segundo o psicólogo. “Em uma sociedade do espetáculo, os dramas, os conflitos e as desordens psíquicas encontram formas muito atuais e específicas de expressão. A loucura adquire proporções sociais plenas.” Ele resume: o mundo se tornou um lugar difícil para suportar a obscuridade, principalmente se a pessoa tem uma desordenação psíquica. Lembra a Grécia antiga, em que a imortalidade, própria dos deuses, poderia ser atingida a partir de um feito extraordinário. Os massacres seguem essa lógica, mas às avessas.

suicídio, lembrado pela professora de psicologia da Fafire Josélia Quintas como um sofrimento individual, desesperança e uma agressividade contra a si próprio, ocorre em Suzano de outra maneira. “Ali, há uma questão social em que a comu­nidade é arrastada pela doença de uma pessoa”. Para Quintas, a psi­cologia poderia ajudar com o trabalho preventivo nas escolas, identificando indícios de doenças mentais quan­do elas estão começando.

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