Morre aos 80 anos o poeta e repentista Daudeth Bandeira, referência da cantoria nordestina

Faleceu nesta segunda-feira (16), aos 80 anos, o poeta, repentista e compositor Daudeth Bandeira, um dos nomes mais respeitados da cantoria nordestina. Natural de São José de Piranhas, no Alto Sertão da Paraíba, ele dedicou a vida à poesia improvisada, à música de raiz e à valorização das tradições culturais do Nordeste brasileiro.
Batizado como Manuel Bandeira de Caldas, nasceu em 9 de junho de 1945 e era o caçula de uma família marcada pela arte da cantoria. Filho de Tobias Pereira de Caldas e Maria de França Bandeira, era neto do cantador Manuel Galdino Bandeira e irmão dos também poetas Pedro, Francisco e João Bandeira. Desde cedo, cresceu em meio a violas, desafios e rimas, iniciando ainda jovem sua trajetória nos palcos da poesia popular.

Ao longo da carreira, participou de festivais, congressos e encontros de cantadores em diversas regiões do país, acumulando reconhecimento e premiações. Seu estilo era caracterizado pela agilidade no improviso, domínio vocabular e firmeza temática — qualidades que lhe garantiram respeito entre colegas de profissão, estudiosos da cultura popular e admiradores da cantoria.

Além das apresentações, deixou relevante contribuição fonográfica, participando de projetos como Um Voo na PoesiaCapim VerdãoO Grande DesafioFrenacrepCantares da Terra e Estação Nordeste, dividindo gravações com importantes nomes do repente.

O velório aconteceu na Funerária Rosa de Saron, na Avenida Vasco da Gama, no Centro de João Pessoa. O sepultamento na terça-feira (17), às 10h, no Parque das Acácias, no bairro José Américo de Almeida, também na capital paraibana.

Com sua partida, a poesia nordestina perde uma de suas vozes mais autênticas, mas sua obra e seus versos permanecem vivos na memória cultural do povo.

 

Poema

O Plantador de Milho

 (Daudeth Bandeira)

 

Sou eu caboclo da roça

Criado dentro da mata

Nunca calcei um sapato

Nunca usei uma gravata

Moro perto da cidade

Mas pra falar a verdade

Só vou lá de feira em feira

Ou quando há precisão

De batizar um pagão

Ou buscar uma parteira

 

No dia que registrei

O meu filhinho mais novo

O juiz estava nervoso

Brigando no meio do povo

Me chamou de maltrapilho

Sujo, plantador de milho

E disse mais uma piada

Dessas que a boca não cabe:

Matuto pobre só sabe

Fazer menino e mais nada.

 

O juiz não tinha filhos

Que enfeitassem sua vida

Eu conhecia a história

E fui direto na “ferida”:

O senhor está zangado,

Tem dez anos de casado

E a mulher não tem um filho;

A sua comida fina

Não contém a vitamina

Que há na massa do milho.

 

A minha família é grande

Dez filhos e a mulher.

Sua família é pequena

Mas é porque você quer.

A sua mulher lhe embroma

Quase todo dia toma

Anticoncepcional

Lhe vicia em novela

Dorme tarde e faz tabela

E esquece do “principal”.

 

Ouvi o senhor dizer

Que está gastando por mês

Mas de dez salários mínimos

Só com perfume francês

Diz que a vida é uma bomba

Que foi não foi leva tromba

Com mercadoria falsa

Comprar perfume estrangeiro

É pra quem possui dinheiro

Nos quatro bolsos da calça

 

Caro doutor, lá em casa

Ninguém nem conversa em luxo

A fora uma simples roupa,

O resto é encher o bucho

Não acostumei meu povo

Exigir sapato novo

Para as festas de São João

Ao invés de um colar de ouro

Compro a rabada de um touro

Pra se comer um pirão.

 

Lá ninguém fala em perfume,

O que há na minha casa

É cheiro de carne assada

Pingando em cima da brasa

Minha cabocla Maria,

Gorda, disposta e sadia,

Pra toda vez que eu quiser

Botar fogo na geléia

Para isso a minha “véia”

É mulher, sendo mulher.

 

Como, é galinha caipira

E não galeto de granja

Ao invés de coca-cola

Tomo suco de laranja

Com rapadura de mel.

E escute aqui, bacharel,

Conversa longa me atrasa.

Quer ver a mulher Ter filho?

Bote um plantador de milho

Pra dormir na sua casa.

 

Informações do Blogdojordanbezerra.com

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