De pipocas a contratos milionários: denúncias em série desafiam a gestão de Serra Talhada sob a sombra do silêncio
Serra Talhada já não discute apenas uma denúncia. Discute um conjunto de denúncias. E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais delicado dessa história.
Nos últimos dias, o assunto deixou de ser exclusivamente uma pauta da oposição na Câmara Municipal. Chegou às ruas, ganhou as redes sociais, atravessou os limites do município e passou a fazer parte do debate político de Pernambuco.
E, diante de tudo isso, existe um elemento que chama atenção: o silêncio da gestão municipal.
Não há, até aqui, uma explicação pública capaz de responder, ponto a ponto, ao conjunto de questionamentos que vem sendo apresentado.
E silêncio, em política, nunca é apenas silêncio. Quando uma acusação é feita e o acusado responde, existe um confronto de versões.
Quando uma acusação é feita e a resposta não vem, o espaço vazio começa a ser ocupado pela dúvida.
E é justamente esse espaço que hoje está sendo preenchido pelas redes sociais, pelos discursos dos vereadores, pelos vídeos dos denunciantes e pela conversa das ruas. O grito cresce porque o governo não responde na mesma proporção.
DE CHINA A HEVERTON: A DENÚNCIA SAIU DO PLENÁRIO
O vereador China Menezes foi o primeiro a transformar uma série de questionamentos em uma ofensiva política sistemática.
Geradores contratados para unidades de saúde que, segundo fiscalização da oposição, não foram encontrados nos locais indicados.
Em alguns casos, os questionamentos chegam a centenas de milhares de reais; em outros, alcançam a casa do milhão.
E quando parecia que o assunto estava restrito ao embate entre China e a gestão, surge outro personagem. Heverton Lopes.
Candidato a deputado estadual e advogado que se apresenta nas redes como “caçador de corruptos”, Heverton veio a Serra Talhada, começou o vídeo em frente à Prefeitura e foi às ruas com cartões de CNPJ e documentos nas mãos.
A imagem é simbólica. Ele não ficou falando apenas de documentos. Foi procurar os endereços.
E encontrou, segundo relata no vídeo, situações que classificou como incompatíveis com os registros oficiais.
O “GASPARZINHO” DOS CNPJs
Heverton procura os empresários.
Segundo os documentos apresentados por ele, uma empresa aberta em abril de 2025 teria recebido R$ 51 mil do município por serviços que incluem recreadores, personagens vivos, algodão-doce e pipoca.
É justamente aí que a denúncia ganha um elemento quase surreal. Porque a pergunta deixa de ser apenas: quem recebeu? Passa a ser: onde está a empresa? Onde estão os recreadores? Onde estão os personagens? Onde foram produzidos e distribuídos os algodões-doces e as pipocas? Onde estão os documentos que comprovam a entrega desses serviços?
R$ 1,676 MILHÃO EM SACOS DE LIXO
O caso envolvendo uma outra empresa, segundo a denúncia apresentada por Heverton, a empresa ARM Distribuidora teria faturado R$ 1,676 milhão na atual gestão fornecendo sacos de lixo.
O advogado foi até o endereço registrado e afirmou que o número indicado não existiria. É uma acusação grave. E exatamente por isso merece uma resposta igualmente objetiva.
MAS A HISTÓRIA NÃO COMEÇOU COM HEVERTON
É importante dizer isso. Heverton não inaugurou essa discussão. Ele ampliou uma crise que já estava instalada.
China Menezes já havia colocado sob questionamento contratos de geradores, manutenção de veículos e ambulâncias. E há um episódio particularmente emblemático.
A oposição foi até unidades de saúde verificar os geradores que, segundo os documentos apresentados, estavam contratados para funcionar nesses locais.
Os vereadores não encontraram os equipamentos. Se estavam instalados, a gestão pode mostrar. Se foram retirados, precisa explicar.
LISBETH, A SECRETÁRIA QUE APARECE NAS DENÚNCIAS, MAS NÃO NO CENTRO DAS RESPOSTAS
E aqui chegamos a Lisbeth Rosa. O nome da secretária aparece repetidamente nas denúncias.
Ela é a responsável pela pasta onde estão os contratos e despesas questionados.
Mas, politicamente, algo chama atenção: quanto mais Lisbeth é citada, menos ela aparece para responder diretamente.
Quando China tentou convocá-la à Câmara, o requerimento foi rejeitado por 12 votos a 4.
A base governista optou por outro caminho: pedir informações e documentos à Secretaria. É legítimo.
Mas não elimina a pergunta.
Por que não ouvir diretamente a secretária? Por que não permitir que ela explique?
A rejeição da convocação acabou alimentando exatamente aquilo que a base governista provavelmente gostaria de evitar: a percepção de que Lisbeth está sendo protegida.
E MÁRCIA CONRADO?
No topo da estrutura está a prefeita Márcia Conrado. É dela a responsabilidade política pela gestão.
É dela a caneta que sustenta o governo.
É dela, portanto, a responsabilidade de explicar à população quando sua administração é colocada sob suspeita.
Mas enquanto a crise da Saúde cresce, Márcia aparece intensamente na agenda política e eleitoral.
E aqui entra outro personagem dessa história: Breno Araújo, esposo da prefeita que está no centro da mobilização eleitoral do grupo.
Márcia tem participado ativamente da campanha e da construção política em torno do marido.
Nada de errado em uma prefeita apoiar politicamente seu esposo. Mas existe uma pergunta que não desaparece por causa da eleição: quem explica as denúncias da Saúde?
O PROBLEMA DO SILÊNCIO
É possível que todas as denúncias sejam respondidas. É possível que todos os contratos estejam regulares.
É possível que as empresas existam, que os serviços tenham sido prestados, que os geradores tenham sido instalados e que os veículos tenham passado pelos reparos indicados.
O silêncio prolonga a dúvida. E, em determinado momento, o silêncio começa a parecer uma resposta.
Não porque prove culpa. Mas porque deixa o grito sem contraponto.
SERRA TALHADA QUER SABER
A cidade não precisa escolher entre China e Lisbeth. Não precisa escolher entre Heverton e Márcia. Não precisa transformar uma denúncia administrativa em guerra eleitoral.
Precisa apenas saber a verdade. Se China está errado, que se prove. Se Heverton está errado, que se prove.
E é sobre uma prefeita que, diante de uma sucessão de acusações, precisa decidir se continuará permitindo que outros falem por sua gestão ou se vai finalmente colocar os documentos sobre a mesa.
E, diante da gravidade das acusações, explicar não é conceder um favor à oposição. É prestar contas à população.
Do Júnior Campos
