“Eu não preciso de desculpa, eu preciso do leite”: pai de criança com microcefalia e paralisia cerebral passa mal ao tentar conseguir fórmula especial em Serra Talhada
O desabafo de Roque, pai de uma criança de apenas três anos diagnosticada com microcefalia e paralisia cerebral, expôs nesta quarta-feira (22) a dimensão dramática da crise enfrentada por famílias que dependem do fornecimento de fórmulas especiais pela rede pública de saúde de Serra Talhada.
Em um vídeo de quase 11 minutos, Roque relatou, em tom de desespero, mais um episódio de uma luta que, segundo ele, já se arrasta há meses: conseguir o leite especial de que o filho necessita para se alimentar.
A família havia acabado de sair de uma sessão de fisioterapia do pequeno quando recebeu a informação de que o leite finalmente estaria disponível na Farmácia Municipal. Ansioso, Roque afirmou que mal conseguiu se alimentar antes de ir ao local.
Mas, ao chegar à farmácia, a expectativa rapidamente se transformou em frustração.
Segundo o pai, um funcionário recebeu uma ligação e, logo depois, teria informado que não poderia entregar todo o leite. A justificativa apresentada, de acordo com o relato, era de que havia apenas duas latas disponíveis e que o restante chegaria na sexta-feira.
Para quem convive diariamente com a falta do produto, a promessa de que o leite chegaria em alguns dias não foi suficiente para tranquilizar.
“A gente que vive desse jeito, que vai, que não tem, que vai, que não tem, poderia acreditar? É difícil”, desabafou.
Roque conta que pediu um relatório informando a quantidade de leite recebida pela farmácia, justamente para saber se o estoque era realmente insuficiente para atender às crianças que aguardavam o produto. Segundo ele, o documento não foi apresentado.
“Como é que eu tenho um ambiente que chegou mercadoria que é para o povo e não vem relatório da quantidade?”, questionou.
A situação teria provocado uma forte reação emocional entre as famílias presentes. Uma das mães, que também aguardava a fórmula para os filhos, teria começado a chorar e relatado que não tinha condições financeiras para comprar o alimento.
“Ela disse: ‘Eu não tenho condições. Eu tenho três crianças em casa. Eu não aguento mais’”, contou Roque.
De acordo com o pai, a mulher passou mal e começou a vomitar dentro da unidade.
O próprio Roque também começou a sentir dores no peito e a passar mal. Hipertenso e fazendo uso de medicação controlada para a pressão arterial, ele decidiu ir a uma farmácia particular para verificar sua pressão. O resultado, segundo seu relato, foi de 17 por 11.
“Aí eu comecei a ficar mais nervoso ainda. Meu Deus do céu, e se eu morrer? O que é que vai ser do meu filho? Porque já é difícil conseguir as coisas para ele. Imagina sem eu”, desabafou.
Isaac, de apenas três anos, tem microcefalia e paralisia cerebral e necessita de cuidados especiais. Para a família, a fórmula não é um item opcional ou um alimento que possa simplesmente ser substituído sem consequências. É parte da rotina de cuidados de uma criança que possui necessidades específicas.
Em um dos momentos mais emocionantes do vídeo, Roque afirma que o filho acaba sendo obrigado a consumir alimentação comum quando o leite especial não é disponibilizado.
“Uma criança de três anos, meu irmão, tendo que comer comida normal, se engasgando, porque não tem o leite”, afirmou.
Após retornar à Farmácia Municipal, Roque relata que pediu ajuda aos guardas municipais que estavam no local, dizendo que estava passando mal e precisava ser socorrido. Segundo ele, uma ambulância foi solicitada. O pai acabou sendo levado ao hospital, onde recebeu medicação e realizou exames. Em seu relato, afirmou que continuou se sentindo mal mesmo após o atendimento. Mas a dor maior, segundo ele, não era apenas física. Era a sensação de impotência diante da dificuldade de garantir um alimento essencial para o próprio filho.
Ao longo do desabafo, Roque também dirigiu críticas à prefeita Márcia Conrado. Ele relembrou que conheceu a gestora antes de ela chegar à Prefeitura e afirmou que votou nela nas duas eleições municipais.
“Márcia, eu me lembro como hoje quando tu chegou lá. Eu nem te conhecia, não sabia nem que tu era candidata. Vi lá sua simplicidade, sua humildade. Votei com você naquela eleição. Votei com você na próxima”, disse.
Mas, segundo ele, sua percepção mudou depois que seu filho nasceu e passou a depender de cuidados especiais e de produtos fornecidos pelo poder público.
“Eu não tinha criança especial em casa que dependia da Prefeitura. Não dependia. Mas quando meu filho nasceu, quando ele teve as complicações dele, quando as coisas dele ficaram caras, tudo caro, tudo, tudo é caro, que precisa… aí, onde está?”, questionou.
Em tom de profunda decepção, o pai afirmou se sentir traído pela gestão que ajudou a eleger.
“É a famosa facada nas costas”, declarou.
A denúncia ocorre em meio a uma crise que vem sendo acompanhada pelo Portal Júnior Campos. Mães e pais de crianças que necessitam de fórmulas especiais já haviam relatado atrasos, falta de produtos e entrega de quantidades insuficientes. Em alguns casos, famílias afirmam que passaram longos períodos aguardando itens como Fortini Plus, Neocate e Aptamil Pepti.
O problema provocou manifestações de mães, cobranças políticas e medidas judiciais para tentar garantir o fornecimento dos produtos.
Em meio à crise, também houve críticas de vereadores e lideranças políticas à gestão municipal, enquanto famílias continuam relatando dificuldades para obter aquilo que consideram essencial para a sobrevivência e a saúde de seus filhos.
Agora, o novo relato coloca novamente a Prefeitura de Serra Talhada diante de questionamentos que permanecem sem resposta: qual foi a quantidade exata de leite recebida pela Farmácia Municipal? Quantas crianças aguardavam o produto? Por que algumas famílias teriam recebido apenas duas latas? E por que não foi apresentado um relatório detalhado sobre o estoque e a distribuição?
Para Roque, a resposta não pode ser apenas uma justificativa.
“A gente não precisa de desculpa. A gente precisa do leite, velho. Não é desculpa. Não adianta desculpa. É você fazer o certo”, afirmou.
E, em uma das frases mais fortes do desabafo, resumiu a angústia de um pai que há meses luta para garantir o alimento do próprio filho:
“Eu não preciso de desculpa, cara. Eu preciso do leite.”
Ao final do vídeo, já exausto emocionalmente, Roque deixou uma frase que traduz o sofrimento de muitas famílias que dependem do fornecimento público:
“Tô cansado, velho. Cansado.”
